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Neoliberalismo - A semente do populismo e dos novos fascismos?

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O Lisbon & Sintra Film Festival organiza a jornada de reflexão “Neoliberalismo - a semente do populismo e dos novos fascismos?”, a fim de melhor determinar as ligações entre os nossos modos de vida e as derivas fascistas, de analisar os perigos presentes e futuros da nossa sociedade, e de aperfeiçoar a consciência das nossas responsabilidades enquanto seres humanos. O neoliberalismo promete-nos a utopia de um mercado puro e perfeito, em detrimento do político, conduzindo-nos em direcção ao crescimento do individualismo e da competitividade, a desfavor das relações colectivas, criando assim um mundo fragmentado e dividido. Como chegámos até aqui? A uma tão forte ausência de consciência do outro, a uma obsessão connosco mesmos e com o nosso próprio conforto?


Versão longa:
Na cave de uma universidade, encontram-se frente a frente um grupo de jovens estudantes e uma unidade de polícias armados, prestes a proceder a um controlo de identidade. Entre eles, alguns migrantes de rostos marcados pela fadiga, pela desorientação e pelo medo. Nesta sala, depois de meses de ocupação pacífica, que se seguira à destruição dos acampamentos, teve lugar uma triagem.

Nesta sala, os únicos a ser revistados e objecto de controlo seriam aqueles corpos estigmatizados pelo exílio e pela clandestinidade. Foram posteriormente encaminhados para autocarros e depois… Um pavilhão, um acampamento, um centro de detenção, ou talvez um aeroporto, quem sabe? Terão tanto controlo sobre as suas vidas como as vacas num matadouro.

Nesta sala, após terem sido testemunhas da triagem, a maioria dos estudantes não tinha outro tema de conversa senão a violência que haviam sofrido algumas horas antes, enfrentando a polícia enquanto tentavam evitar, com o próprio corpo, a provável expulsão. Estes mesmos jovens, que estavam há dias sem dormir para salvaguardar aquele lugar de vivência dos “inimigos da República”, não se aperceberam de que, ao mesmo tempo, sob a mesa onde se apoiavam para se lamentarem, se escondia um homem para tentar escapar, tanto tempo quanto possível, à sua inevitável e perpétua desumanização. Como é que chegámos a esta completa ausência de consciência do outro, a uma obsessão connosco mesmos e com o nosso próprio conforto?

Esta cena, apenas um exemplo, entre tantos outros que marcam a nossa sociedade contemporânea, reflecte a generalização de políticas que lembram práticas fascistas. Práticas que, certamente, não são concentracionárias na antiga acepção da palavra, mas que podem vir a sê-lo. Este exemplo não é um fenómeno mas um sintoma estrutural de uma sociedade inquietante, onde estas práticas são não apenas sistemáticas e legais, mas tornadas naturais e banalizadas por toda a sociedade.

O encerramento das fronteiras; a execução de detenções de pessoas que procuram fugir da guerra e da pobreza, tantas vezes causadas pelos mesmos países que agora punem o seu exílio; as leis que criminalizam a solidariedade civil; a islamofobia; o lento desaparecimento dos serviços públicos nas zonas urbanas mais precárias; o aumento das penas de prisão preventiva; o massacre de populações em nome do terrorismo…

Todas estas políticas nos lembram-nos o tempo onde a superioridade de uma parte da população sobre outra, tornada inimiga, era aceite e justificava medidas de exclusão e até massacres. O tempo onde qualquer revolta contra essas políticas era criminalizada. Todavia, não podemos analisar a nossa contemporaneidade apenas com as ferramentas conceptuais do fascismo, sem aí encontrar afinidades com o nosso presente. Hoje, mais do que nunca, devemos dar provas de exigência conceptual e intelectual para melhor determinar os nexos entre os nossos modos de vida e estas práticas fascistas.

Estamos perante um novo modelo que encontra as suas raízes para lá das políticas nacionais, que se alimenta de um sistema económico mundializado. No entanto, a teoria neoliberal acreditava ser o repelente dos regimes fascistas e autoritários, emancipando a sociedade da política das massas para privilegiar o indivíduo e a sua liberdade. Mas entre a teoria keynesiana e a sua colocação em prática, a utopia deste sistema económico afundou-se na realidade do sangue das suas vítimas.

O neoliberalismo promete-nos a utopia de um mercado puro e perfeito em detrimento do político. O capitalismo conduziu-nos em direcção ao incremento do individualismo e da competitividade, em detrimento das relações colectivas, criando um mundo fragmentado e dividido. Para muitos, este sistema criou um «excedente» de realidade, um excesso de conforto e de possibilidades, em detrimento da expansão do ser, dos valores éticos.

Face a este alarme, o Lisbon & Sintra Film Festival organiza uma jornada de reflexão intitulada “Neoliberalismo — a semente do populismo e dos novos fascismos?”, na qual participam filósofos, artistas, juristas… para responder de forma exigente à urgência de reflexão, de análise dos perigos presentes e futuros da nossa sociedade e da nossa responsabilização, individual e colectiva.

Consulte o programa aqui.

Horários

Teatro Nacional D. Maria II Sala Garrett

Debate com Aminata Dramane Traoré, Ângela Ferreira, Baltasar Garzón, Inês Branco López, Irene Pimentel, José Gil, e outros convidados a confirmar.
Filme The Code apresentado por Baltasar Garzón.

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