Lisbon & Estoril Film Festival

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À memória de Wilson Filipe (1948-2020)

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“Uma vez, na brincadeira, o Thomas Harlan disse-me: ‘Foste o actor da tua própria vida, não queres seguir essa profissão?’ ” Wilson Filipe

Há dois anos, no âmbito do ciclo temático "O Desejo Chamado Utopia", o LEFFEST apresentava pela primeira vez uma versão de “Torre Bela”, de Thomas Harlan, digitalizada pela Cinemateca Portuguesa, naquela que será a última versão do filme feita pelo realizador, com uma duração maior do que a circulara por cá em sala. Em Abril de 1975, camponeses sem terra e sem trabalho, muitos deles analfabetos, desamparados, ocuparam a herdade da Torre Bela, feudo do Duque de Lafões, mais de mil e quinhentos hectares onde nada se cultivava, e aí constituíram uma cooperativa. Foi uma acção espontânea, 572 dias que abalaram o Ribatejo, que contou com a colaboração do MFA. Por lá passaram Zeca Afonso, Vitorino, Fanhais, Camilo Mortágua. 

“Filme mítico de uma ocupação mítica”, filme sobre a libertação e apropriação da palavra por aqueles que a não tinham e que vemos ali conquistá-la em tempo real, com “um valor intemporal e universal que muitos filmes captados nessa altura não têm”, como escreveu José Manuel Costa, director da Cinemateca Portuguesa, sobre ele diria Serge Daney: “Raramente se terá visto melhor o fazer e o desfazer de uma colectividade singular em si e feita ela própria de singularidades, apanhada num processo político em que ela é a verdade cega e o ponto da utopia.”

O festival convidou vários dos participantes para assistir à projecção desta versão e para um debate a seguir, que poderão ver aqui https://www.youtube.com/watch?v=TbqIhoVHW9o , e no qual participaram Wilson Filipe, um dos líderes da ocupação, falecido esta semana, Camilo Mortágua, Francisco Fanhais, Otelo Saraiva de Carvalho, Roberto Perpignani (o montador do filme), Chester Harlan (filho do realizador), José Manuel Costa, o historiador Francisco Bairrão Ruivo, e o director do LEFFEST, o produtor Paulo Branco.  

De Wilson Filipe, recordamos estas palavras, no início da sua intervenção: “Era uma utopia. Era um sonho. E eu estive a chorar quando estive a ver esse sonho agora. Muita da gente que estivemos a ver, já não existe, morreu. Aquele que discute comigo a enxada, a ferramenta, suicidou-se quando a Torre Bela acabou. Porque não podia viver sem ser com a Torre Bela. […] O Thomas Harlan viveu muito a Torre Bela. O Thomas entrou na Torre Bela e ficou lá como se fosse um cooperante. Era realmente um homem muito, muito interessado. Vivia no lugar a luta dos trabalhadores […] Foi um sonho que vivi.”
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