Lisbon & Estoril Film Festival

Notícias

Ana Luísa Amaral – A partilha da beleza

Voltar
Ana Luísa Amaral (1956-2022) foi (com o escritor J. M. Coetzee, os realizadores Emir Kusturica e Maria Speth, e a actriz Carmen Chaplin) membro do júri da 15ª edição do LEFFEST, em 2021. Ela, que desde os 9 anos vivia em Leça da Palmeira, viajando pelo mundo para apresentar os seus livros e os seus estudos, regressava assim a Sintra, à “mágica” Sintra onde vivera a sua infância, os “Tempos daquele circo colorido / em frente do cinema, o cheiro doce / da serradura húmida, a serradura em sons / ao ser pisada, a entrada na luz, / nos súbitos relâmpagos feitos de absoluta lucidez. // Trazia um elefante por dentro da cabeça / e o sonho de fugir em caravana, / não precisar de escola, e prender / o trapézio no olhar.” *

Há muito que nos acompanhava e participava em iniciativas que levávamos a cabo (o cinema era outra das suas paixões e também surge em vários dos seus poemas), apresentando filmes e conversando sobre eles. Nessa edição do festival participou ainda em duas iniciativas: lendo poemas de Lorca (era uma leitora extraordinária, e a sua voz encantatória; podemos escutá-la na série de programas da Antena 2, com Luís Caetano, O Som Que os Versos Fazem ao Abrir, onde divulgavam a ‘poesia do mundo’), que ela própria traduziu, na sessão “ Do Al-Andaluz à ‘Gran Redada’ ”, integrada no programa de celebração da cultura Rom, e numa conversa com J.M. Coetzee e Ines Lopez Branco sobre a “A Cultura nas Prisões”.

No seu discurso na entrega do Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana (que acabara de receber pouco antes do festival, e que se somava aos muitos prémios e distinções com que a sua obra foi galardoada), Ana Luísa Amaral dizia que partilhava “uma espécie de consciência a que Frank White chamara, em 1987, o ‘efeito perspectiva’, a mudança de percepção que acontece quando vemos a Terra a partir do espaço”. Ana Luísa falava disto porque entendia que “também a poesia pode realizar uma espécie de ‘efeito perspectiva’ em relação ao mundo: vê-lo de outras formas, sempre novas e estranhamente – estranhas. E depois partilhadas. A beleza do efémero que nos move, precisamente porque é efémero. Mas que permanecerá, ao transformar-se.” A poesia de Ana Luísa Amaral continuará connosco. 

O LEFFEST lamenta o desaparecimento de Ana Luísa Amaral, uma das vozes mais importantes da poesia portuguesa das últimas décadas, uma amiga, e envia as suas condolências à sua filha, Rita Amaral.

*Ana Luísa Amaral, “O Olhar Diagonal das Coisas” – Poesia reunida, Assírio & Alvim, 2022
Este website usa Cookies. Ao navegar neste website está a concordar com a nossa Política de Cookies.