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Cristi Puiu e novo cinema romeno homenageados no LEFFEST

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O LEFFEST ‘21 dedica uma retrospectiva à obra de Cristi Puiu, um dos expoentes máximos do cinema europeu contemporâneo.

Poderíamos dizer que o cinema, se tal generalidade de facto existe, obedece escrupulosamente ao princípio físico da seta do tempo. Mas raros são os filmes que dele se apercebem, menos ainda os que o tornam sensível. A obra de Cristi Puiu, que “acredita que a melhor posição da câmara é aquela em que a morte é visível”, constitui uma dessas espantosas excepções. A irreversibilidade do tempo e a inexorabilidade da entropia, o destino de um mundo cujo processo de envelhecimento é mais rápido que a nossa capacidade de o pensar – tudo isso encontra aqui a sua imagem, num conjunto de filmes para os quais ainda não temos sistema, teoria, e que nos apontam insistentemente para uma Grande Morte que nos escapa, aquela que, segundo Rilke, “cada um traz dentro de si”, o “fruto em torno do qual tudo gravita”.

Marfa și banii – Stuff and Dough (2001), primeira longa-metragem de Cristi Puiu, é frequentemente atribuída a paternidade de toda uma moderna vaga de filmes a que se convencionou chamar o Novo Cinema Romeno. Um “movimento” – onde cabem nomes como os de Cristian Mungiu, Corneliu Porumboiu ou Radu Jude – que a estrondosa aclamação do segundo filme de Puiu, A Morte do Sr. Lazarescu (2005), apenas viria consolidar. Abstemo-nos de comentar a justeza de um rótulo que reúne filmes tão diferentes sob a premissa da nacionalidade dos seus autores. Diremos, porém, que mesmo dentro deste alegado conjunto estilístico, onde abundam os planos-sequência e as histórias brutais de um país em falência moral, o cinema de Cristi Puiu retém um alcance filosófico ímpar, a sede de um absoluto e sobretudo a largueza de um gesto equiparável ao dos grandes autores – Visconti, Buñuel, Oliveira, entre outros…

Por mais insignificantes ou “pessoais” que sejam os conflitos retratados nos filmes de Puiu, ele filma-os como se deles dependesse a consistência de um universo – e de facto, a integridade destes ambientes ficcionais compõem-se de puras adições atractivas ou repulsivas, do esgar de uma personagem que se contrapõe ao monólogo apaixonado de outra. Este efeito de ampliação é de tal forma potente que num almoço de família como o de Sieranevada (2016) parece jogar-se o veredicto moral de toda uma época histórica – a nossa. Como em Shakespeare, aqui cada personagem sintetiza um sistema filosófico e leva-o até às suas últimas consequências: estamos no território da polémica, onde todos os filmes de Puiu confortavelmente se situam. Mas as suas figuras também hesitam, respiram, suspiram, desmaiam, descompõem-se, negando ou tornando impuro o seu próprio ponto de vista, uma lição que o cinema só apreende na sua totalidade depois de Cassavetes, influência notável, mas não opressiva, na obra de Puiu.

Malmkrog (2020), o seu último filme, dá-nos uma imagem acabada da seta do tempo. Durante 3 horas e 21 minutos participamos da morte de um mundo aristocrático, onde se discutem sem pudor conceitos que levam letra maiúscula – Deus, a Razão, o Bem e o Mal –, um mundo que teve de morrer para que o nosso pudesse viver. Nesse sentido, e contra o horror ao envelhecimento, a má imortalidade típica da estética publicitária que determina a actualidade, o cinema de Puiu oferece uma alternativa radical. Os seus filmes têm a coragem de se interessar pela decadência e a vida que se cumpre no tempo, por um presente que passa, que não pára de passar, e que verdadeiramente se inscreve na história humana. Só por esta inquietação a obra de Puiu seria digna de figurar entre as melhores que o nosso jovem século já produziu. Que a essa ambição teórica se junte o puro deleite de um cinema onde o lugar da câmara, a paixão de um actor, ou a originalidade de uma fala são coisas que ainda contam, é nada menos que extraordinário.

É uma honra para o LEFFEST poder contar com a presença de Cristi Puiu na retrospectiva que este ano dedicamos à sua obra. Serão exibidas todas as suas longas-metragens: Marfa și banii – Stuff and Dough (2001); A Morte do Sr. Lazarescu (2005), considerado o 5º Melhor Filme do Século XXI pelo The New York Times; Aurora (2010); Sieranevada (2016); e Malmkrog (2020), um dos melhores filmes de 2020 para os Cahiers du Cinéma e obra seleccionada para competição no LEFFEST do ano passado.

Os não-iniciados têm aqui uma oportunidade para o confronto com esta nova concepção do que pode ser um cinema na mesma medida dramático e filosófico.  E os já convertidos não poderão, pois claro, faltar a uma viagem tão completa por um dos universos cinematográficos mais intrigantes da actualidade.
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