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Pathos Ethos Logos: três vidas e uma imagem do mundo

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É forçoso que de cinquenta em cinquenta anos desça à Terra um objecto tão não-identificado, não-alinhado e não-reconciliado como Pathos Ethos Logos (2021), para que se ponha a descoberto a irredutibilidade mútua entre palavras e imagens. Porque o que aqui temos é um cinema que faz uma careta à nossa vontade de o fixar nesta ou naquela frase. Um cinema demasiado comprometido com a totalidade do presente para que dele se possa ter uma “ideia”, ou pior ainda, uma sinopse. Mas como não tomar por certas as palavras de Luis Miguel Cintra, que, tendo participado nesta experiência litúrgica, esteve talvez perto do seu segredo? “Eu não reconheço esta forma, a forma do mais camaleónico dos filmes”, diz-nos. “E, no entanto, tem a sua interessantíssima arrumação. Concluo exaltado: isto sim, este é já um cinema novo.”

É sabido que a novidade não se cria sem repetição, sem um fundo temporal que a torne reconhecível. Ora, Joaquim Pinto e Nuno Leonel há três décadas que vêm traçando um percurso vital no cinema português e do mundo. Vitalidade que teve no documento diarístico e autobiográfico E Agora? Lembra-me (2013), prémio Especial do Júri no Festival de Locarno, um dos seus cumes absolutos. Num mundo de “dias maus”, epidemias e ensaios clínicos, os cineastas mostravam-nos, por vezes quase à lupa, um reino animal que queria ainda viver. Entre as lesmas, os homens e os cães, filmava-se como que um pacto secreto: nunca abrir mão da existência no seu sentido mais profundo e inteiro.

Com Pathos Ethos Logos, Joaquim Pinto e Nuno Leonel retomam esses cuidados e essa extrema atenção à comunidade geral dos seres humanos e não-humanos, esses “temas” (chamemos-lhes assim, como se não fossem a própria matéria dos dias pós-pandémicos). Mas lançam-nos para onde o cinema raras vezes se atreveu a ir. É que desta vez a dupla precisou de refazer o próprio tecido do tempo para que nele coubesse o seu filme, ou mais especificamente, três vidas e uma imagem do mundo. As vidas são as de Ângela (interpretada pela directora de produção do filme, Ângela Cerveira), Rafaela (a actriz Rafaela Jacinto) e Fabiana (Fabiana Silva, que aqui se estreia na representação). 2028, 2017 e 2037: é por estes três anos que se divide a acção do filme, num denso hipertexto onde se animam e se confundem as regiões do factual e do poético, da filosofia e da religião. Abismado, o espectador percorre uma rede de episódios que não abdica das possibilidades do cinema narrativo, antes lhes dá um novo horizonte.

Não há sistema observado que não inclua nele o observador, como há muito o sabe a cibernética. Assim sendo, o que sucede a um filme quando ele toma por objecto essa coisa desmedida e caótica que é o estado do mundo? Estilhaça-se, pois claro. E das tímidas duas horas passa para uns monumentais 641 minutos. A última barreira protectora, a da “ficção”, também acabará por ceder. Quem pode dizer onde termina aqui o documentário e começa a fantasia apocalíptica? Do alto de 2017 não seríamos já capazes de avistar 2037? A virtualidade dos nossos medos, dos nossos sonhos, e da nossa fé, não informa sempre a nossa capacidade de agir sobre o actual? Por isso há neste filme quem se pergunte o que significa ter filhos perante a iminência de um desastre ecológico e civilizacional, e há quem não veja outra opção senão juntar-se aos Médicos Sem Fronteiras.

Este cinema total tem a sua estreia nacional no LEFFEST ‘21, na secção Fora da Competição. Será exibido no Cinema Nimas, nos dias 19, 20 e 21 de Novembro, onde haverá conversas com alguns dos participantes do filme, a anunciar brevemente. 

Pathos Ethos Logos é um fim e um recomeço; agora aguarda um público à altura da sua novidade.

Programa
Cinema Medeia Nimas


PATHOS - Primeira Parte
19 de Novembro

Com apresentação de:
  • Luis Miguel Cintra
  • Dom Abade Bernardino da Costa (Mosteiro de Singeverga)
  • Madre Maria do Carmo Tovar (Mosteiro de Santa Escolástica)

ETHOS - Segunda Parte
20 de Novembro

Com apresentação de:
  • Rafaela Jacinto (actriz)
  • João Antunes (Representante Médicos Sem Fronteiras Portugal)

LOGOS - Terceira Parte
21 de Novembro

Com apresentação de:
  • Ângela Cerveira (actriz) 
  • Martim Grange (Facilitador e trainer da Climate Fresk)


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