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Romeo Castellucci e a “totalidade das artes” no LEFFEST ‘21

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O encenador e artista plástico italiano Romeo Castellucci é um dos criadores em destaque no LEFFEST ‘21.

Castellucci estará presente e acompanhará este programa especial To Reverse One’s Eyes, com curadoria da dramaturga e investigadora em teoria da arte Piersandra Di Matteo, que tem vindo a colaborar com Castellucci de há vários anos para cá.

O foco principal desse programa, que se desdobrará em quatro momentos, decorrerá no Teatro Nacional D. Maria II no dia 15 de Novembro (no dia seguinte haverá uma última sessão no cinema Nimas), e contará com apresentações por Piersandra Di Matteo e Romeo Castellucci. Na noite de 15, a seguir à projecção de um dos seus trabalhos mais emblemáticos dos últimos anos, a ousada reinterpretação da ópera de Christoph Willibald Gluck, Orphée et Eurydice (2014), Castellucci  conversará sobre o seu trabalho com Pedro Penim, o novo director artístico do Teatro Nacional D. Maria II.

O teatro de Castellucci, no seu princípio conceptual de uma “totalidade das artes”, aproxima-se de um impensado do corpo, um fora-do-pensamento que a convenção teatral, acomodada à função de “ilustrar” textos literários, corre o risco de falhar. O som, a imagem, a arquitectura, a escultura, a pintura - tudo neste teatro converge no sentido de uma afectividade pré-verbal, a das intensidades corpóreas. Daí o generalizado sobressalto, um enorme “agitar das águas”, que muitas vezes suscitam os seus espectáculos. Ao que Castellucci responde: “o teatro é uma arte carnal”. Procure-se, então, precisamente aí – na carne que precede a letra do texto – uma das muitas chaves de interpretação para esta obra desavergonhadamente “de vanguarda”.

A abrir, no dia 15 de Novembro, no Teatro Nacional D. Maria II, Piersandra Di Matteo apresenta, às 15h, o programa The Epic of Dust (1992-1999) – um conjunto de trabalhos seleccionados a partir da produção teatral de Castellucci nos anos 90, já então em assinalável ruptura com a tradição dramática ocidental; segue-se, ainda com a sua apresentação, às 18h, Tragedia Endogonidia (2002-2004), um colossal ciclo, concebido pela Socìetas Raffello Sanzio, onde se procura o trágico no mundo actual. Por fim, na última sessão do dia, às 21h, Orphée et Eurydice, na qual o mito de Orfeu é transposto para a condição clínica de um estado comatoso, projecção seguida de conversa entre Romeo Castellucci e Pedro Penim.

O programa especial encerra a 16 de Novembro, no Cinema Nimas, às 15h, com o ciclo The Act of Seeing (2006-2014), uma selecção de excertos de diferentes produções, apresentada pelo encenador. Este conjunto inclui a série em torno da figura feminina Hey Girl! (2006); Inferno (2008), parte de uma trilogia feita a partir da Divina Comédia de Dante; Sul Concetto di volto nel Figlio di Dio (2010); The Phenomenon Called I (2011) e Le Sacre du Printemps (2014), uma coreografia para 40 máquinas inspirada na composição incontornável de Igor Stravinsky.

Com esta mostra multidimensional da prolífica carreira de Romeo Castellucci, o LEFFEST ‘21 traz ao público português um dos teatros mais inovadores da Europa contemporânea.

PROGRAMA
ROMEO CASTELLUCCI
To reverse one's eyes 

Curadoria de Piersandra Di Matteo  

15 de Novembro
Teatro Nacional D. Maria II

15h - Programa #1 The Epic of Dust (1992-1999), apresentado por Piersandra Di Matteo
18h - Programa #2 Tragedia Endogonidia (2002-2004), apresentado por Piersandra Di Matteo
21h - Programa #4 Orphée et Eurydice (2014), seguido de conversa entre Romeo Castellucci e Pedro Penim

Bilhetes: 6€ (público geral) / 5€ (estudantes)
À venda em bilheteira e em www.bol.pt

16 de Novembro
Cinema Medeia Nimas

15h - Programa #3 The act of seeing. A selection of extracts (2006-2014), apresentado por Romeo Castellucci

Programa #1 The Epic of Dust (1992-1999)          duração: 100 min
Amleto, la veemente esteriorità della morte di un mollusco (1992)
Orestea (una commedia organica?) (1995 > 2015)
Giulio Cesare (1997)
Genesi. From the Museum of Sleep (1999)

As trajectórias artísticas de Romeo Castellucci exploradas nos anos 90 – reunidas sob o título Epopea della Polvere / Epic of Dust – foram uma ocasião para repensar radicalmente a tradição do Drama Ocidental. Negando qualquer legitimidade a um teatro concebido como ilustração de um texto, Castellucci envolveu-se numa imersão rigorosa nos grandes clássicos do teatro ocidental, de Ésquilo a Shakespeare, na descoberta de um teatro do corpo. Em Amleto, la veemente esteriorità della morte di un mollusco (1991), encontramos um menino com a sintomatologia de uma criança autista. Encerrado num acampamento composto por circuitos elétricos e animais de peluche que se transformam em simulacros da sua família, vacila entre o ser e o não-ser. Orestea (una commedia organica?) (1995) – reencenado 20 anos depois do original – descarrila à maneira de Alice e Humpty-Dumpty de Lewis Carroll traduzida por Antonin Artaud durante a sua internação psiquiátrica em Rodez. A linguagem de Ésquilo passa para o corpo, tornando-se uma substância orgânica. Giulio Cesare (1997) investiga o Império da Retórica e a morfologia do monumento, olhando para as origens da cultura ocidental e para as suas formas de política, enquadrando um “drama da voz” entre corporificação, simulação e dissimulação. Genesi. From the Museum of Sleep (1999) trata do primeiro livro da Bíblia. Estruturado em três actos – At the beginning, Auschwitz, Abel and Cain –, Castellucci contempla a criação através do seu oposto mais extremo: Auschwitz. Corpos, mecanismos e figuras traçam um itinerário em que cada criatura está condenada a sonhar e a ser sonhada, enquanto evoca uma forma de sofrimento reveladora de formas de compaixão.

Programa #2 Tragedia Endogonidia (2002-2004)         
duração: 109 min
A.#02 AVIGNON (2002)
BN.#05 BERGEN (2003)
P.#06 PARIS (2003)
C.#11 CESENA (2004)    

Tragedia Endogonidia é o ciclo colossal concebido pela Socìetas Raffello Sanzio durante um período de três anos (2002-2004), produzindo 11 episódios em 10 cidades europeias (Cesena, Avignon, Berlim, Bruxelas, Bergen, Paris, Roma, Estrasburgo, Londres e Marselha). Concebido como um organismo em perpétuo estado de fuga, alicerça-se numa ideia auto-generativa que gira à volta da ideia de cidade. A estrutura dramática deste ciclo reconstitui o exosqueleto da tragédia grega, numa investigação do trágico no mundo de hoje. Baseia-se em factos crus, sem catarse possível. A solidão do herói e seu anonimato são explorados por meio de figuras e actos incapazes de chegar a um final adequado. O ciclo é dirigido pelos vídeo-artistas Cristiano Carloni e Stefano Franceschetti, englobando 11 filmes que retratam a vida morfológica de todo o projeto teatral. Aqui, propomos quatro episódios.

Programa #3 The act of seeing. A selection of extracts (2006-2014)          duração: 102 min
Hey girl! (Festival d’Automne, Paris, 2006)
Inferno (Cour d’Honneur, Papal Palace, Avignon, 2008)
Sul Concetto di volto nel Figlio di Dio (Theater der Welt, Essen, 2010)
The Phenomenon called I (Tokyo Festival, Yumenoshima, 2011)
Le Sacre du Printemps (Ruhrtriennale, Duisburg, 2014)

Este programa é composto por uma série de excertos a partir de diferentes criações de Romeo Castellucci. Hey girl! (2006), gira à volta da verdade e do corpo, no corpo da actriz Silvia Costa, onde gestos e imagens condensam a exterioridade de um estado de consciência entre o sonho e a vigília. Como artista associado do Festival de Avignon em 2008, Romeo Castellucci encenou Inferno, Purgatorio, Paradiso, uma trilogia que bebe livremente da Divina Comédia de Dante Alighieri. A Cour d’Honneur do Palácio Papal acolheu o Inferno em que o artista, optando por “ser Dante”, assume a sensação de confusão ao encontrar-se no início de uma viagem pelo sentido do ser humano. Em Sul Concetto di volto nel Figlio di Dio (2010), enquadrado entre o espectador e um enorme Salvator Mundi de Antonello da Messina, uma quantidade hiperbólica de excremento é produzida por um pai velho e incontinente, carinhosamente cuidado pelo filho: a degradação do corpo transforma-se numa reflexão sublime sobre a humanidade e a transitoriedade. The Phenomenon Called I (2011) foi concebido en plein air para o parque da ilha artificial Yumenoshima (Ilha dos Sonhos), feita de lixo urbano e situada na baía de Tóquio, frente a um público de aproximadamente 3.000 pessoas, aproximadamente seis meses depois do desastroso tsunami que atingiu o país. Le Sacre du Printemps (2014) é uma coreografia para 40 máquinas concebida para a dança molecular de 30 toneladas de osso animal pulverizado, produzido industrialmente como fertilizante agrícola. A poeira é nebulizada em massas gasosas, incorporando a ideia de dança intimamente relacionada com os ostinatos e com as acentuações dinâmicas da música de Igor Stravinskij.

Programa #4 Orphée et Eurydice (2014)          duração: 86 min
Filme realizado por Myriam Hoyer a partir de Christoph W. Gluck (versão de Hector L. Berlioz, 1859)
Encenação de Romeo Castellucci
Produção La Monnaie | De Munt

A urgência visual que percorre o teatro de Romeo Castellucci encontra o seu campo de expressão na produção da ópera, como testemunha a exibição completa de Orphée et Eurydice. O mito de Orfeu traduz-se numa reflexão sobre o estado abismal do coma, revivendo a excepcionalidade de um dispositivo capaz de convergir a música tocada no teatro de La Monnaie e na sala do centro de reabilitação Inkendaal onde Els, uma jovem que sofre de síndrome do encarceramento, é hospitalizada. A mitologia e a música de Gluck tornam-se espelhos nos quais se reflecte a fragilidade humana, reconhecendo na arte "o dever de pensar sobre a condição humana, mesmo a mais extrema" (RC).

Bilhetes à venda a partir de 15 de Outubro
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