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Jim Carrey: Será que ele existe?

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Com a sua radicalidade habitual, Jim Carrey surpreendeu ao afirmar: “desistam da esperança”, como forma de suportar o tempo em que vivemos. A frase, disparada durante o espectáculo de Michael Moore, The terms of My Surrender, apresentado na Broadway há uns anos, nasceu da forma como Carrey foi lidando com a sua carreira ao longo dos anos e questionou a imagem daquele que é considerado um dos melhores actores de comédia das últimas décadas, embora tenha sido em papéis dramáticos que conquistou a admiração definitiva do público e da crítica, em filmes como Homem na Lua (1999), de Milos Forman, ou Despertar da Mente (2004), de Michel Gondry, só para citar alguns.

Após a estreia do mais recente filme Sonic the Hedgehog 2 (2022), Jim Carrey, já com 60 anos, e 42 de carreira, anunciou a retirada do cinema, afirmando que só uma espécie de milagre, e uma história fora de comum, o fará voltar à interpretação. Por agora, o actor dedica-se obsessivamente à pintura e aos cartoons de cariz político.

É um dos maiores actores das últimas décadas, responsável por vários sucessos de bilheteira, sobretudo pela sua capacidade camaleónica em “transformar-se” fisicamente nas personagens que interpreta, como ficou evidente logo num dos primeiros filmes, o famoso A Máscara (1994).

Actor e argumentista, já em criança revelava este talento inato para conseguir transfigurar-se e apresentar diferentes expressões faciais. Quanto mais a sua mãe lhe pedia para não o fazer, mais Jim se sentia fascinado por esta característica, também motivado pelo seu pai, um homem com coração de palhaço que teve de se sujeitar a um emprego comum de vendedor para sustentar a família. Este aspecto marcou para sempre a atitude de Jim Carrey face ao seu trabalho que sempre tentou fazer aquilo que o deixava mais feliz, ainda que não lhe trouxesse a maior compensação financeira.

Carrey começou a trabalhar em séries para a televisão em 1980 e, três anos mais tarde, estreou-se no cinema com The Sex and Violence Family Hour, de Harvey Frost. Ainda nessa década, participou em vários filmes, entre eles, Peggy Sue Casou-se, de Francis Ford Coppola. Mas foi em 1994, com três filmes que foram grandes sucessos de bilheteira: Doidos à Solta, de Peter e Bobby Farrelly; Ace Ventura – Detective Animal, de Tom Shadyac (realizadores com quem Carrey viria a trabalhar várias vezes); e A Máscara, de Chuck Russel, que a sua carreira explodiu. Participaria em Batman para Sempre, de Joel Schumacher, interpretando a personagem Enigma, e, no ano seguinte, faria uma sequela Ace Ventura e O Mentiroso Compulsivo (1997), novamente com Shadyac, com boa recepção crítica e, de novo, um grande sucesso público. Interpretou a seguir outro personagem icónico, Truman Burbank, em The Truman Show – A Vida em Directo (1998), de Peter Weir, com o qual ganhou um Globo de Ouro para Melhor Actor, feito que repetiria com a sua interpretação de Andy Kaufman no aclamado Homem na Lua (1999), de Milos Forman.

Em 2003, fez a comédia Bruce, o Todo-Poderoso, uma nova colaboração com Tom Shadyac, onde Carrey interpreta o papel de Bruce Nolan/Bruce, o Todo-Poderoso, que teve uma recepção crítica mista, mas foi um dos filmes mais vistos e com maior receita do ano. Seguiu-se o filme de culto de Michel Gondry, O Despertar da Mente (2004), onde contracena com Kate Winslet.

Nos últimos anos, publicou um livro infantil, How Roland Rolls, que vinha acompanhado de um EP de canções originais que trabalhou com a sua filha Jane Carrey, e pelo meio das estreias do documentário de Chris Smith, Jim & Andy: The Great Beyond (festival de Veneza, 2017) e de Sonic – O Filme (2020), tem trabalhado para a televisão e tem-se dedicado à pintura.

Há alguns anos, durante uma conversa com Michael Moore, no espectáculo The Terms of My Surrender, na Broadway, Jim admitiu a depressão que sofreu durante anos e a forma como lidou com ela. «Todos nós temos medo do rio das lágrimas e, como toda a gente, evitei os problemas com comida, sexo, barulho e gadgets», disse em palco. Mas foi o facto de ter finalmente enfrentado a doença que lhe permitiu superá-la.

Hoje, com 42 anos de carreira, Jim Carrey admite um cansaço e uma desilusão com Hollywood, e tem sido uma das vozes mais críticas dos valores e das tomadas de posição da meca do cinema. A possibilidade de abandonar o cinema foi anunciada após a estreia do novo filme Sonic the Hedgehog 2 (2022). “Se os anjos trouxerem algum tipo de argumento escrito em tinta dourada que me diga que será muito importante para as pessoas verem, posso continuar no caminho, mas estou a fazer uma pausa. Gosto realmente da minha vida tranquila, adoro pintar e adoro a minha vida espiritual. Sinto que tenho o suficiente. Fiz o suficiente. Sou suficiente”, disse o actor numa entrevista ao Access Hollywood.

Até lá, ainda é possível vê-lo num novo especial da Netflix que faz uma homenagem ao apresentador e comediante Bob Saget, onde estará lado a lado com Chris Rock, John Mayer, John Stamos e Jeff Ross.

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