Lisbon & Estoril Film Festival

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O Desejo Chamado Utopia

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Vivemos numa era caracterizada por uma consciência histórica enfraquecida, e pela incapacidade crescente de imaginar qualquer alternativa radical. E se o pós-modernismo e o neoliberalismo surgiram como resposta para a falência política dos anos 60, então a questão da utopia é o único grande teste que permanece, capaz de testar a nossa habilidade para projectar uma mudança significativa. Considerando estas circunstâncias, o Lisbon & Sintra Film Festival considera essencial dedicar parte da sua programação à procura dos impulsos utópicos na história do cinema.

Versão longa :

A utopia é, na sua essência, uma ideia escatológica que remete para teorizações relacionadas com o fim do mundo. A utopia destrói a construção da realidade, levando à crença na irreversibilidade das grandes mudanças, crendo na possibilidade de o real conter futuros brilhantes. A utopia permite compreender a realidade em que nos movemos, enquanto provoca um afastamento da mesma, acordando-nos para um sentimento de necessidade, de responsabilidade, que guia a audiência no sentido de se ser mais do que meros autómatos controlados por forças poderosas, as quais procuram concretizar as suas ideologias.Tendo em conta a natureza potencialmente populista do cinema, e a forma como as visões utópicas foram instrumentalizadas para justificar a repressão, acreditamos que o cinema pode ainda ser um veículo para a utopia, não só na escolha dos temas de um determinado filme — mas também no que diz respeito ao seu direito à existência.

Mas conseguimos nós imaginar o futuro? Seremos capazes de sonhar um mundo completamente diferente? Fredric Jameson, o académico contemporâneo que mais se dedicou a esta temática, defende que toda e qualquer tentativa de representar a utopia na forma narrativa está destinada a falhar. As visões utópicas colocam inevitavelmente em evidência os seus próprios limites e fundamentalismos escondidos, revelando as contradições das eras de que provêm. Assim, a utopia como narrativa funciona não como um meio de imaginar um futuro melhor, mas, pelo contrário, como forma de evidenciar a nossa incapacidade de projectar tal futuro. Por isso, o nosso programa evita as utopias cinematográficas no sentido tradicional. E as poucas que seleccionámos não lidam com filosofias políticas que pretendam incentivar acções através de directrizes. Isso seria certos filmes soviéticos que estrear-se-ão em Portugal pela primeira vez — First Russians, de 1967, e uma versão recentemente restaurada de Fragment of an Empire, de 1929 — bem como uma re-encenação utópica de Winstantley, da autoria de Kevin Brownlow e Andrew Mollo.Ao invés de reforçar a utopia como tema, pretendemos percorrer a história do cinema à procura dos múltiplos impulsos utópicos, capazes de provocar e incentivar a mudança. A utopia genuína é uma máquina de promessas orgânica e viva, a qual alimenta a esperança para um futuro melhor, sem fornecer garantias da sua chegada.

Obras de referência do cinema político dos anos 70, como Torre Bela ou The Peasants of the Second Fortress, da autoria de Shinsuke Ogawa, não devem ser entendidos neste contexto como projectos políticos. Essencial é que estes que sonharam, pretenderam eliminar as barreiras entre o cinema e acção, representação e emancipação, realização cinematográfica e resistência — pelo menos no que diz respeito à linguagem cinematográfica e métodos utilizados.Sylvian George estreará em Portugal o seu filme mais recente, Paris est une fête.  Aqui, dá continuidade à tradição de convergência poética e política na sua visão da Europa contemporânea. Um dos seus objectivos é divulgar a noção de Walter Benjamin do “fraco poder messiânico que o passado reivindica”.Marc Karlin, um dos maiores ensaístas do cinema, ainda por descobrir pelo grande público, foi um dos artistas que testemunhou a destruição de utopias no decurso de disputas geopolíticas.Diversos artistas, incapazes de escapar ao inescapável, tentaram salvar as utopias ao delinear os seus contornos. Outros, como Artur Aristakisyan e José Val del Omar, visionários do cinema, tentaram transcender a realidade material e, através do cinema, da câmara, do som, desvendar os significados sagrados e dimensões escondidas, transformando perspectivas.

O cinema como instrumento de apoiar ao status quo, através de falsas representações e escapismo é um dos aspectos que será pensado no nosso programa através de diversas tentativas de libertar o medium — entre estas, a reimaginação do Black Audio Film Collective, na forma do documentário político Seven Songs for Malcolm X, ou o filme de ficção científica quasi-documental de Lizzie Borden, Born in Flames.Políticas pessoais, de dissonância artística e geracional encontram-se na vanguarda da desconstrucão utópica do cinema de Larry Clark, em Passing Through e na obra de Djibril Diop Mambety — Touki Bouki.A crença no potencial utópico das tecnologias digitais e da internet é representada no nosso programa através dos trabalhos de Harun Farocki, Chris Marker e Bruno Sukrow.

O desejo chamado Utopia não é um desejo que possa ser satisfeito, não sem se tornar mais um acto falacioso de consumo. Até as mais admiradas e afamadas visões utópicas falham e falharam, o que não significa que nos devamos entregar ao derrotismo. Esta insatisfação revela a nossa necessidade de imaginar formas de gratificação inerentes, que nos permitam confrontar o impossível. E quem disse que o cinema não pode ainda ser essa forma?

Curadores:
Alexey Artamonov
Denis Ruzaev
Ines Branco López

Filmes a exibir no ciclo: 
Torre Bela, Thomas Harlan (1975)
Fragment of an Empire, Fridrikh Ermler (1929) 
Scenes for a Revolution, Marc Karlin (1991) 
Palms, Artur Aristakisyan (1993) 
First Russians, Evgeny Schiffers (1967) 
Seven Songs for Malcolm X, John Akomfrah (1993)
Born in Flames, Lizzie Borden (1983) 
Passing Through, Larry Clark (1977) 
Ouvroir, Chris Marker (2010)
The Artist in the Circus Dome: Clueless, Alexander Kluge (1968) 
Fuego en Castilla (Tactilvision del páramo del espanto), José Val del Omar (1960)
Aguaespejo Granadino, José Val del Omar (1955) 
Acariño Galaico (de barro), José Val del Omar (1995)
Narita: Peasants of the Second Fortress, Shinsuke Ogowa (1971)
Paralel I, Harun Farocki (2012) 
Paris est une fête, Sylvain George (2017)
Winstanley, Kevin Brownlow, Andrew Mollo (1975) 
Dreams are colder than Death, Arthur Jafa (2014)
Touki Bouki, Djibril Diop Mambéty (1973)
Running Fence, Albert Maysles, David Maysles (1977)
A Quimera do Riso, Preston Sturges (1941)
Nas Latitudes do Futuro, Marcelo Felix (2017)
Anna, Bruno Sukrow (2014)

Horários

Centro Cultural Olga Cadaval Auditório Jorge Sampaio

ABERTURA DO CICLO: O DESEJO CHAMADO UTOPIA 
Apresentado pelos curadores Alexey Artamonov, Denis Rusaev e Ines Branco López

APRESENTAÇÃO YUKSEL ARSLAN
Leituras de textos de Jean Genet

Espaço Nimas

ABERTURA DO CICLO: O DESEJO CHAMADO UTOPIA 
Carta Branca a Wes Anderson RUNNING FENCE 
ARTISTS UNDER THE BIG TOP: PERPLEXED - Apresentado por Alexey Artamonov, Denis Rusaev e Ines Branco López 

Cinema Medeia Monumental Sala 3

Os três filmes em exibição nesta sessão fazem parte da série: "Tríptico Elemental de España" de José Val del Omar.

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